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o derick que mora no mato

Eu disse que ficaria dois meses. "Mas talvez eu volte só para buscar as coisas."

E assim foi.

O mar de montanhas visto de casa, no Céu do Gamarra

O Rio no 2x

Cheguei ao Rio de Janeiro aos 18 anos com um sonho simples de falar e pesado de carregar: ter uma agência. Deu certo. A gente trabalhou com a Anitta nos quatro primeiros anos de carreira dela, antes do primeiro show. Chico Buarque, Maria Bethânia, mais de 150 artistas nacionais. Por alguns anos, todos os lançamentos da Warner Music Brasil passavam pela gente. Do escritoriozinho fui para o escritório bacanudo, cadeira de seis mil reais, computadores caros. Eu queria ter a maior agência de marketing digital do Brasil.

Só que artista gosta de começar a trabalhar às quatro da tarde. Então a madrugada era o pico do meu trabalho. Trabalhava, trabalhava, trabalhava, trabalhava, trabalhava. Vivia com o coração palpitando. Ficava no celular o dia inteiro. Tratava mal as pessoas — "todo mundo era burro, todo mundo não entendia nada". Desenvolvi mania de perseguição: andava na rua achando que ia cruzar com cliente me cobrando coisas.

Tem uma foto minha dessa época com meu sobrinho no colo. Sorriso aberto, mostrando os dentes. Mas eu me conheço. Eu conheço a minha cara. Eu estava mal. Tanto que passava na casa da minha irmã todos os dias para brincar com ele — era o meu momento de felicidade. O resto era a vida no 2x, igual áudio acelerado de WhatsApp: dava para entender tudo, menos o sentido.

Você conhece a sua cara de quando está mal?

a foto com meu sobrinho no colo — o sorriso que não era legal · foto a caminho

Foi uma transição, não foi uma quebra. Isso levou uns seis anos.

A encruzilhada

A grande mudança na minha vida veio de uma encruzilhada: depressão e ansiedade juntas — o que os médicos chamam de comorbidade. No dia em que eu vi que estava mal, mal mesmo, busquei terapia. E a terapeuta abriu a conversa com uma prescrição de uma simplicidade quase ofensiva: "Vai caminhar. Vai gastar energia."

Eu fui. E aqui está a parte que ninguém gosta de contar, porque estraga a história de virada mágica: não houve virada mágica. Foi uma transição, não foi uma quebra. Isso levou uns seis anos. Fui incorporando coisas, uma de cada vez. Mania de perseguição virou caminhada. Celular o dia inteiro virou yoga. O jeito grosso de tratar as pessoas virou estudo da espiritualidade. Coração palpitando virou meditação. Não ter tempo para mim virou cozinhar o meu próprio alimento. Trabalhar o dia inteiro virou ter horário de trabalho. Seis anos de degrau em degrau — e digo isso com consciência: quem passa por dificuldades materiais não consegue ficar tratando as questões emocionais. É um privilégio poder pensar sobre isso.

No auge da crise, passei uma semana aqui no Céu do Gamarra e saí renovado. Sabe quando você volta de uns dias de descanso e três dias depois já está na lama de novo? Pois é. Na lama, eu coloquei a foto da montanha como papel de parede do computador e falei: "Esse é o visual que eu tava lá na pousada e esse é o visual que eu tenho que ter dentro de mim."

A ligação

Aí veio a pandemia. O mundo parou, a agência fechou o escritório e virou 100% remota. Numa manhã, terminando de meditar vendo o sol nascer no Rio, liguei para a Carol Pedalino — da mesma família Pedalino do meu primeiro trabalho remoto, aos 16 anos, quando eu atualizava o site do Los Hermanos de Caxambu. "Carol, deixa eu ficar uns dias aí na pousada." Ela respondeu: "Derick, a gente tá abrindo um retiro chamado Residências Regenerativas. Chega aí, a gente tá abrindo hoje."

Eu assim fui. Falei para o amigo que dividia apartamento comigo: "Vou passar dois meses, talvez estenda para três, mas talvez eu volte só para buscar as coisas e me mudar para lá." E assim foi. Na saída do Rio, o caminhão da mudança caiu numa viela, dois moleques com um fuzil... e um livramento. "Pode ir, chefe." E vim. Em janeiro de 2021, cheguei ao Espaço Lua Branca, dentro da ecovila, para uma residência de três meses que nunca terminou.

Agora, um aviso honesto, que escrevi logo nas primeiras semanas aqui: viver em meio à natureza não resolve os problemas. Parece romanticamente perfeito, mas não é a solução para tudo. Estar no meio do mato não reduz os seus afazeres — te ajuda demais a se concentrar neles. Tanto que, dois anos depois de chegar, tive um burnout aqui dentro, cercado de passarinho. Perdi o foco. Dei muito pro trabalho. Pedi ajuda. Fui ajudado. Também ajudei. A montanha não é anestesia. É horizonte.

A comunidade

A Ecovila Céu do Gamarra existe há quase quarenta anos, no vale do rio Gamarra, zona rural de Baependi, sul de Minas — terra que antes de nós foi dos indígenas da nação Cataguá. Foi fundada por Fábio e Suzana Pedalino, que saíram do Rio de Janeiro para construir essa história nas montanhas. A Suzana resume a decisão deles numa frase que eu invejo de tão simples: "Meu coração sempre foi das montanhas."

Ecovila, aqui, são duas coisas: um grupo de pessoas que resolve morar junto na natureza e um ideal em comum — no nosso caso, uma busca espiritual. Foi morando aqui que eu descobri que todos moramos em comunidade. Quando você está na cidade grande, você está numa comunidade. Só que aqui é uma comunidade intencional: nós temos a intenção de estarmos juntos em uma só direção.

O documentário da Ecovila Céu do Gamarra

E a vida aqui é menos idílica e mais divertida do que parece de fora. Tem mutirão de domingo, todo mundo de enxada na mão — arrumamos o que é nosso. Tem festa brega no barracão, porque a vida na roça é bem agitada. Tem palhaço de estrada hospedado em casa. Tem carcará bicando o vidro da porta de manhã. Tem vizinho que produz azeite orgânico premiado. Tem criançada solta, crescendo numa segurança que na cidade não existe mais, meio que criada por todos — e me ensinando a falar "de agora em diantes". Tem também o silêncio, aquele que a cidade não deixa escutar.

O centro da minha vida é a minha vida, não é o meu trabalho.

O trabalho que orbitou

Muita gente perguntou como é que o publicitário podia trabalhar dali. Ora bolas: eu peguei, puxei a cadeira e a mesa, e comecei a trabalhar dali. No início da pandemia, metade dos colaboradores da agência já trabalhava remotamente; quando tudo virou remoto, vi que a operação inteira funcionava muito bem no ambiente virtual — e logo me atinei que eu também poderia trabalhar de qualquer lugar. A internet que me salvou aos 12 anos, quando um problema no fêmur me trancou em casa e o computador virou o meu mundo, é a mesma que me permite morar aqui.

E aconteceu o contrário do que os céticos esperavam: minha produtividade aumentou. Estar em harmonia com a natureza, ver o céu estrelado, quase nenhuma poluição — é revigorante. Você se conecta mais consigo mesmo para estar entregue nas atividades do dia. Logo, o resultado também é melhor. Uma pessoa satisfeita com ela mesma trabalha melhor. É isso que eu estimulo para mim e para as pessoas que trabalham comigo.

No Rio, o centro era o trabalho — e o resto orbitava. Aqui, inverteu. O trabalho continua, forte: sigo dirigindo a Métrica.Social pelo computador, com uma equipe espalhada pelo Brasil. Mas quando me mudei, a gente parou de trabalhar com artistas. Eu falei: quero trabalhar com coisas que me motivam. A agência Métrica virou Métrica.Social e passou a trabalhar só com impacto positivo — Médicos Sem Fronteiras, UNESCO, ONGs que mudam milhões de vidas — criando narrativas para comunicar causas. Hoje trabalho quatro dias por semana; sexta-feira é conquista, não é folga. Troquei o tempo do translado por mais tempo ao meu lado.

O que a montanha devolveu

Foi daqui que a poesia voltou. Não como projeto — como reflexo. Um carcará vem bicar o vidro da porta e, antes do café, já tem verso: "Carcará / Por que vem me acordar?" A natureza aqui é uma televisão que não desliga, e eu virei mais um verso da poesia do mundo.

O carcará à porta — e o poema

Foi aqui que conheci a Marina, que hoje é minha esposa. Escrevi um poema para ela antes de conhecê-la — comecei o "Oi, amor!" sem saber para quem era e terminei sabendo. Deus tem dessas gentilezas com quem espera.

E foi aqui que a fé achou o lugar dela na minha rotina. A comunidade tem um foco central, que é o estudo da espiritualidade através da doutrina do Santo Daime — que eu já frequentava desde os meus 18 anos. Quando decidi me mudar, me perguntei o de sempre: por que não? Não consegui responder. E quando eu não consigo responder, é a intuição falando: vai, tá tudo certo. Aqui a fé se vive sem cerimônia, do terço à floresta; não é evento, é cotidiano.

Eu costumo dizer que mudei minha vida com trabalho em três frentes: material, emocional e espiritual. Não atingi o estado da arte em nenhuma delas e não vou atingir nesta vida — mas a vida ganha total sentido em saber que é nisso que eu emprego o meu esforço. A transição de seis anos que começou numa encruzilhada terminou numa varanda, olhando um céu que não tem filtro. De 2025 para cá, quando olho esse céu estrelado, sei que há uma estrela a mais: meu amado papai.

esta foto não tem filtro; a luz que nos iluminou vinha lá de cima · foto a caminho

Se você quer ver como é a vida por aqui no dia a dia, o meu Instagram é praticamente um diário do Gamarra. E se você está na sua própria encruzilhada — de carreira, de cidade, de vida — me chama para um bate-papo. Eu não vou te vender nada mesmo. Mas talvez eu te faça a pergunta certa: por que não?

Primeiro eu vivo, depois eu conto.

De tempos em tempos, escrevo sobre o que estou vivendo por aqui: marketing para o bem, vida na montanha, poesia e o que mais a vida trouxer. Deixa teu e-mail que eu te conto.

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